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Adiar consultas oncológicas por medo da Covid-19 coloca o paciente sob risco de piora

18/11/2020
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Após oito meses de pandemia, os hospitais aprenderam a lidar melhor com a Covid-19 e estão preparados para receber pessoas. O paciente não pode deixar o medo impedi-lo de buscar tratamento, avaliam oncologistas que participaram da 5ª edição do seminário sobre câncer, realizado pela Folha, nos dias 10 e 11 de novembro.

O perigo é o oposto. Evitar consultas coloca pacientes sob risco de piora do quadro, ao mesmo tempo que hospitais podem acumular uma demanda reprimida, impactando atendimentos futuros.

Um estudo da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, realizado com 120 oncologistas associados, apontou que mais de 74% deles tiveram um ou mais pacientes que interromperam ou adiaram o tratamento por mais de um mês durante a pandemia.

Paula Philbert, médica do Hospital do Câncer de Uberlândia (MG), conta que, em nenhum momento, o setor de oncologia parou de funcionar. Só nos dois primeiros meses consultas foram adiadas, a maioria de pacientes que fazem só acompanhamento.

“Não resolveria o problema e teríamos uma demanda reprimida muito grande”, diz. A ordem é fazer os atendimentos normalmente, mas ela reforça que é papel do médico tranquilizar seus pacientes, que já vivem situação de fragilidade, com ou sem pandemia.

Diretor do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês, Artur Katz lembrou da dificuldade dos primeiros meses, quando ainda não havia diretrizes definidas. Os hospitais se adaptaram às pressas e hoje adotam um sistema de triagem para separar quem tem sintomas de Covid-19.

“Não podemos deixar de tratar uma doença presente ou com alta probabilidade de se manifestar, com receio de uma que não sabemos se a pessoa vai pegar”, diz Katz. No Sírio, os atendimentos começaram a normalizar no segundo semestre e têm hoje demanda próxima da anterior.

Câncer é um diagnóstico que assusta, mas os médicos explicam que ser paciente oncológico não necessariamente significa ser grupo de risco.

“É muito individual”, diz Katz, e Philbert complementa: “Dependendo do tratamento, o paciente não tem um risco maior de complicações”.

Pacientes hematológicos, com linfoma ou leucemia, por exemplo, podem ter um risco maior, mas o importante é avaliar caso a caso.

Em 2017, nas filmagens da série “O Mecanismo”, da Netflix, o ator Leonardo Rosa sentiu um desconforto nos testículos. Era câncer. Em um ano e meio, teve metástase no abdômen e na região entre os pulmões, fez 2 cirurgias e 29 sessões de quimioterapia.

Fez também uma terapia com base em uma alimentação saudável e prática de exercícios. Hoje, seus marcadores tumorais estão normais e ele faz acompanhamento, mas só agora voltou a ir no Inca (Instituto Nacional do Câncer), no Rio de Janeiro, onde vive.

“O emocional influencia muito. A partir do momento que você recebe diagnóstico [de câncer], fica com uma sensação de que tem que ter todo cuidado possível, e fica nesse lugar de ‘vou, ou não vou?’.”

Paula Philbert chama a atenção para as diferenças entre o sistema público, em que trabalha a maior parte do tempo, e o privado. Ela enxerga que a demanda reprimida ainda não chegou ao SUS (Sistema Único de Saúde), pois já existe um intervalo entre diagnóstico e o início de tratamento. “No ano que vem vamos sentir mais o aumento.”

Se a pandemia trouxe incertezas para muitas pessoas, que de repente se viram ameaçadas por um inimigo invisível, Rosa aprendeu a conviver com elas anos antes. “O diagnóstico me lembra da finitude, sim, mas também da alegria de estar aqui.”

O seminário teve patrocínio do Hospital Sírio-Libanês e da Progenética. Os debates foram mediados pela jornalista Mariana Versolato, editora de Ciência, Saúde, Ambiente e Equilíbrio, e os vídeos podem ser vistos no site do jornal.

Fonte: Folha de São Paulo